SUPERAÇÃO | Servidoras negras contam como conquistaram espaços na Justiça e na sociedade

31/07/2020
AMANDA CAMPOS

Quatro mulheres negras empoderadas, servidoras públicas do Poder Judiciário estadual, contam como superaram os obstáculos impostos pelo preconceito racial, em nossa sociedade, e conquistaram espaço e voz na Justiça maranhense. O projeto faz alusão ao Dia da Mulher Negra (25 de julho).

A iniciativa, idealizada pelo Comitê Estadual de Diversidade - instalado pelo presidente da Corte, desembargador Lourival Serejo, e coordenado pelo juiz Marco Adriano - em parceria com a Assessoria de Comunicação do TJMA, visa reconhecer o protagonismo da mulher negra, presente em diversas áreas do Judiciário, dando visibilidade às suas histórias profissionais e de vida marcadas por muitas lutas. 

Nesta última matéria da série especial, as entrevistadas são as servidoras: Francisca Lafaiete Pereira da Silva Souza (Secretária Judicial da 1ª Vara de Pedreiras); Jaciara Monteiro Santos Rodrigues (Oficiala de Justiça, da Coordenadoria das Câmaras Cíveis e Criminais Reunidas do TJMA); Bianca Joseh Bezerra (Técnica Judiciária da Comarca de São Luís); e Mariana Nogueira Silva (Assessora de Juiz da 3ª Vara Criminal de Imperatriz).

Francisca Lafaiete Pereira da Silva Souza
 
Para a secretária judicial da 1ª Vara de Pedreiras, Francisca Lafaiete Pereira da Silva Souza, que trabalha, orgulhosamente, na família judiciária há 35 anos, a melhor forma para enfrentar os preconceitos e obstáculos por ser mulher e negra, “é sempre tentar fazer o melhor, buscar o conhecimento para mostrar que somos capazes”. 

Como mulher negra, filha de pais analfabetos e pobres, Francisca conta que sempre teve, em casa, o incentivo para valorizar o trabalho e ser responsável em suas obrigações. “E sempre tive o privilégio de ser reconhecida e valorizada no meu trabalho, superando os desafios e alguns preconceitos de ser mulher e negra, exercendo um cargo no Poder Judiciário do Maranhão, porém ressaltando que cada dia subimos um degrau na superação dos preconceitos”, frisou a servidora.

A secretária afirma que exercer um cargo comissionado há dezesseis anos a faz sentir acreditar que “a competência e responsabilidade também são qualidades de mulheres negras, no âmbito do Judiciário, o que representa muito e valoriza também”. No Judiciário, a servidora afirma que possui duas fortes e importantes referências de mulheres negras: a saudosa amiga e colega de trabalho Márcia Helena Parga da Silva, que trabalhava em Pedreiras; e a desembargadora Ângela Salazar, “com quem tive o privilégio de trabalhar e considerar uma grande líder”.

Jaciara Monteiro Santos Rodrigues 

A oficiala de Justiça Jaciara Monteiro Santos Rodrigues, que atua na Coordenadoria das Câmaras Cíveis e Criminais Reunidas do TJMA, afirma que teve uma trajetória de lutas e conquistas, pautada sempre no trabalho e nos estudos em busca de dias melhores. “Aprendi desde cedo, com os meus pais, o valor do trabalho digno e o quão ele é importante para a nossa vida. Com as dificuldades que enfrentamos, percebi nos estudos uma grande oportunidade de melhorar nossa condição social e buscar uma vida mais digna e justa, trazendo mais qualidade de vida para a minha família”. 

Em seu depoimento, Jaciara enfatiza que trabalhar e enfrentar o mundo preconceituoso e machista ainda é uma luta diária. Ao falar sobre a sua conquista profissional, no Judiciário, Jaciara afirma ter um sentimento de grande felicidade e realização! “O concurso público é um instrumento de vital importância para a Administração Pública porque privilegia o mérito, proporciona oportunidade para todos que queiram participar. Foi difícil conquistar essa vaga, e por isso honro a minha profissão e sei a importância que tudo isso significa não só para mim e minha família, mas para uma sociedade mais plural e igualitária!”.

No dia a dia da profissão escolhida, quando faz as suas diligências para o cumprimento dos mandados judiciais, nas regiões da periferia, com grande influência do tráfico de drogas ou mesmo nos presídios, e se depara com a realidade, onde a maioria da população negra encontra-se nesse abismo de desigualdade social, a oficiala confessa que se sente “muito triste em constatar que ainda vivemos em uma sociedade onde os resquícios de uma cultura escravocrata e patriarcal são muito latentes até hoje”.

Ao ser questionada sobre exemplos de mulheres negras, no Judiciário, Jaciara cita as desembargadoras Angela Salazar e Anildes Chaves, como fontes de inspiração. “Quando vejo elas no Plenário do Tribunal em plena atuação, dá um orgulho de vê-las rompendo padrões e trazendo representatividade para a mulher negra”.

Bianca Joseh Bezerra 

Ao falar sobre sua trajetória profissional e de vida, a servidora pública Bianca Joseh Bezerra, técnica judiciária da Comarca de São Luís, a caracteriza como desafiadora. “Uma vez que já é difícil para a mulher ocupar espaço de poder ou do saber, esse desafio é bem maior sendo mulher preta. Mas sobretudo, o sentimento é de pertencimento para a construção de uma sociedade plural”.

Para Bianca, exercer um cargo público no TJMA é uma grande conquista que gera representatividade para a mulher negra maranhense. “Saber que podemos ocupar, tendo como recorte o Poder Judiciário, o TJMA, eleva o nosso empoderamento e nos leva a encorajar outras mulheres pretas a construírem espaços plurais”.

Como conselho às mulheres negras, Bianca diz: “É preciso ter determinação, é necessário o empoderamento enquanto mulher preta e dona de sua história”.  Como inspiração de mulher negra no Judiciário, ela cita a colega Joseane Cantanhede, Bibliotecária do Tribunal de Justiça, que atua na Escola da Magistratura. “Acompanho seus trabalhos inclusive, agora, como integrante do Comitê Estadual de Diversidade. É uma inspiradora referência”.

Mariana Nogueira Silva 

A história de vida de Mariana Nogueira Silva, assessora de juiz da 3ª Vara Criminal de Imperatriz, é marcada por pequenas vitórias diárias, segundo ela. “Ser servidora numa instituição historicamente branca e predominantemente masculina é um passo importante para a promoção da equidade e o reposicionamento das mulheres negras dentro da sociedade e do Judiciário. Todos os dias desconstruindo preconceitos históricos e superando adversidades”.

Segundo a assessora, trabalhar no Judiciário gera nela um sentimento de superação e reafirmação “que qualquer espaço pode ser ocupado, desde que tenhamos condições iguais para tanto”. Além disso, Mariana destaca também a questão da representatividade, para que as demais possam compreender que esse espaço também poderá ser ocupado por elas.

Sobre ocupar um cargo no Judiciário, Mariana afirma ser um exercício de paciência que altera a sua percepção de realidade. “Por estar em um cargo público numa instituição notória, imaginei que estaria imune a certas situações. Contudo, aprendi a lidar com isso sem que afetasse a minha vida profissional e tudo aquilo em que acredito”. Como conselho às mulheres, ela deixa: “Acredito que a dedicação e a paixão pelo trabalho tornem o caminho mais brando. Isso gera energia para enfrentar as diferenças e o preconceito com perseverança e racionalidade”.

Como exemplo de inspiração em sua vida profissional, ela tem a mãe e servidora pública, Nildes Maria Nogueira. “Com ela aprendi que espaços podem e devem ser ocupados pela dita minoria e que o caminho não é fácil, todavia somos resistentes e capazes”, concluiu.

Comunicação Social do TJMA
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