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Projeto-piloto do STF aproxima Judiciário de comunidades tradicionais em São Luís

Programação reuniu representantes do Supremo Tribunal Federal, Tribunal de Justiça do Maranhão e lideranças locais em visita institucional e escuta no Quilombo Urbano da Liberdade

Publicado em 29 de Jul de 2026, 18h00. Atualizado em 30 de Jul de 2026, 8h13
Por Amanda Hellen e Amanda Campos

O diálogo direto com povos e comunidades tradicionais marcou a agenda realizada nessa terça-feira (28/7), em São Luís, pelo Programa de Escuta Territorializada, iniciativa da Ouvidoria dos Povos Indígenas, Quilombolas e Comunidades Tradicionais do Supremo Tribunal Federal (STF). O Maranhão foi escolhido para receber o projeto-piloto, que busca aproximar o sistema de Justiça dos territórios e conhecer, a partir da escuta das próprias comunidades, suas realidades e demandas.

A programação reuniu representantes do STF, do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJMA) e lideranças locais em uma agenda que começou no Judiciário maranhense e seguiu para uma imersão no Quilombo Urbano da Liberdade.

A ouvidora-geral do STF, magistrada Flávia da Costa Viana, destacou que a proposta do projeto é fazer com que o Judiciário ultrapasse os espaços institucionais e conheça de perto as diferentes realidades.

Quando a Justiça vai até os territórios e se dispõe a ouvir diretamente as pessoas, conseguimos compreender melhor as barreiras que ainda existem para o acesso aos direitos. Essa aproximação é fundamental para construirmos respostas que considerem as particularidades de cada comunidade", afirmou.


DIVERSIDADE E ACESSO À JUSTIÇA

No TJMA, a comitiva participou de visita institucional ao Comitê de Diversidade e à Ouvidoria Indígena, conhecendo experiências desenvolvidas pelo Tribunal para ampliar o diálogo e o acesso à Justiça de diferentes grupos e comunidades.

A coordenadora-geral do Comitê de Diversidade do TJMA, juíza Elaile Carvalho, ressaltou que a realização da experiência-piloto no Maranhão fortalece uma atuação institucional pautada pelo reconhecimento das diferenças e pelo diálogo.

O Maranhão reúne uma grande diversidade de povos, comunidades, culturas e territórios. Essa realidade exige do Judiciário uma atuação que reconheça essas especificidades. A escuta é um instrumento importante para compreendermos essas diferentes vivências e avançarmos na construção de uma Justiça cada vez mais acessível", destacou.

Um grupo de pessoas reunido para uma foto em um terreiro ou espaço cultural, com lideranças vestindo trajes tradicionais de religião de matriz africana ao centro.

ATUAÇÃO PIONEIRA

De acordo com o projeto do STF, o Maranhão foi escolhido para sediar a iniciativa em razão de sua expressiva diversidade sociocultural e das experiências desenvolvidas pelo Tribunal de Justiça do Maranhão, entre elas a atuação pioneira da Ouvidoria Indígena, referência nacional na promoção do diálogo institucional com povos indígenas e comunidades tradicionais. 

Para a ouvidora Indígena do TJMA, juíza Adriana Chaves, estar presente nos territórios permite identificar demandas que nem sempre conseguem chegar ao Judiciário pelos canais tradicionais.

A escuta precisa alcançar as pessoas onde elas estão. Conhecer os territórios, conversar com as lideranças e compreender as diferentes formas de organização das comunidades contribui para estabelecer confiança e criar canais mais efetivos de acesso à Justiça", pontuou.

Um grupo de pessoas reunido para uma foto em um terreiro ou espaço cultural, com lideranças vestindo trajes tradicionais de religião de matriz africana ao centro.

QUILOMBO URBANO DA LIBERDADE

Após a programação institucional, a comitiva seguiu para o Quilombo Urbano da Liberdade, em São Luís, onde conheceu espaços que representam a organização comunitária, a religiosidade, a cultura e a preservação da memória do território.

A primeira parada foi na Associação dos Remanescentes Quilombolas da Liberdade, onde os participantes conheceram aspectos da história, da organização social e da mobilização da comunidade.

O roteiro também passou pelo Terreiro Ilê Ashé Ogum, espaço de preservação da ancestralidade e das tradições religiosas de matriz africana, e pela Produtora Novo Quilombo, iniciativa voltada à produção cultural e à valorização das narrativas construídas a partir do próprio território.

Um grupo de pessoas reunido para uma foto em um terreiro ou espaço cultural, com lideranças vestindo trajes tradicionais de religião de matriz africana ao centro.

A comitiva também conheceu o Boi da Floresta do Mestre Apolônio, importante referência da cultura popular maranhense e espaço de preservação da memória, da ancestralidade e dos saberes transmitidos entre gerações.

A coordenadora do Boi da Floresta do Mestre Apolônio, Nadir Cruz, do Sotaque da Baixada, destacou a importância de receber a comitiva e apresentar a história construída pela comunidade.

Para nós, é muito significativo receber esse olhar de quem vem de fora e poder mostrar o que existe aqui dentro: a nossa história, a nossa cultura, a nossa ancestralidade e tudo aquilo que foi construído ao longo de tantos anos. Quando as instituições vêm ao território para conhecer e ouvir, elas também passam a compreender melhor quem somos e a importância de preservar e fortalecer esse legado", afirmou Nadir Cruz.

Fotografia em ambiente interno de um terreiro de religião de matriz africana. Ao centro, dezesseis pessoas sorriem lado a lado em semicírculo sobre o piso de cerâmica branca. Destacam-se, ao meio, duas lideranças com trajes rituais tradicionais brancos e estampados, acompanhadas por homens e mulheres com roupas casuais e coloridas. Ao fundo, vê-se um altar decorado com tecidos prateados, flores brancas e imagens religiosas.

DIÁLOGO COM AS LIDERANÇAS

A agenda foi iniciada no Centro de Cultura e Turismo do Quilombo Urbano da Liberdade, com um momento de diálogo e escuta entre representantes do Judiciário e lideranças locais.

No encontro, moradores e representantes comunitários compartilharam experiências, apresentaram demandas e falaram sobre a importância de as instituições conhecerem o território para compreender suas necessidades a partir da perspectiva de quem vive na comunidade.

Para as lideranças locais, a presença dos representantes do sistema de Justiça dentro do território representa uma oportunidade de estabelecer uma relação mais próxima e dar visibilidade às demandas da população.

Receber o Judiciário dentro do nosso território e poder contar nossa história com a nossa própria voz é muito importante. Aqui existem saberes, cultura, resistência e também demandas que precisam ser ouvidas. Quando as instituições vêm até a comunidade, conhecem nossa realidade de perto e abrem espaço para esse diálogo, a relação também se torna mais próxima", destacaram as lideranças participantes.

ESCUTA COMO INSTRUMENTO DE APROXIMAÇÃO

A experiência realizada em São Luís integra a construção de uma metodologia de escuta territorializada voltada a povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Além de identificar obstáculos relacionados ao acesso à Justiça, a iniciativa busca fortalecer a participação social e estabelecer formas permanentes de aproximação entre as instituições do sistema de Justiça e os territórios.

A escolha do Maranhão para receber a projeto- piloto também possibilitou ao STF conhecer práticas desenvolvidas pelo Judiciário maranhense e, ao mesmo tempo, ouvir diretamente as comunidades sobre suas experiências e expectativas em relação ao acesso a direitos.

Na oportunidade, a magistrada Flávia Viana, ouvidora-geral do STF, enalteceu a diversidade sociocultural do Maranhão e avaliou positivamente a abertura das visitas no Estado. 

A escolha do Maranhão não foi por acaso. Essa diversidade sociocultural foi presenciada por nós em todas as visitas que fizemos hoje em São Luís. Então, a riqueza do Estado está muito bem representada, aqui no Quilombo da Liberdade. A escuta e a troca foram genuínas e nós saímos daqui enriquecidas, representando o STF", frisou.

Mais do que levar representantes do Judiciário aos territórios, a proposta é fazer da escuta um instrumento para a construção de políticas e práticas institucionais que considerem as diferentes realidades sociais, culturais e territoriais.

A programação prossegue no dia 29/7, em Imperatriz, com visita ao Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB). No dia 30/7, a comitiva estará na Terra Indígena Araribóia, em Amarante do Maranhão. Já no dia 31/7, visitará a Terra Indígena Krikati, em Montes Altos, dando continuidade às atividades de escuta territorializada junto a povos e comunidades tradicionais do Maranhão. 

Veja o álbum produzido pela fotógrafa Josy Lord


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