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Encontro Nacional debate governança, mediação e soluções consensuais para conflitos fundiários

Programação reuniu magistrados(as), especialistas e representantes de instituições para discutir segurança jurídica, governança territorial e atuação integrada

Publicado em 19 de Jun de 2026, 15h43. Atualizado em 22 de Jun de 2026, 8h39
Por Graziela Milhomem

Como enfrentar conflitos fundiários de forma mais eficiente, integrada e consensual? Essa foi a pergunta que norteou os debates da programação da tarde do primeiro dia do Encontro Nacional das Comissões de Soluções Fundiárias, nesta quinta-feira (18/6), no Auditório Madalena Serejo, no Fórum Desembargador Sarney Costa, em São Luís.

A programação foi dedicada às atividades institucionais e aos painéis temáticos, com transmissão ao vivo pelo canal do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) no YouTube. Nesta sexta-feira (19/6), o encontro segue com atividades práticas, incluindo visita técnica ao município de Alcântara, com o objetivo de aproximar a formulação institucional da realidade vivenciada nos conflitos fundiários.

Reunindo magistrados(as), especialistas e representantes de instituições públicas de diferentes regiões do país, os painéis abordaram temas como governança territorial, segurança jurídica, impactos do crime organizado nos conflitos fundiários e metodologias de mediação voltadas à construção de soluções consensuais.

Vista do auditório durante a programação do encontro, com participantes acompanhando as palestras.

GOVERNANÇA

O primeiro painel da tarde abordou o tema "Governança Territorial e Segurança Jurídica: Integração Operacional e Dogmática na Regularização Fundiária", com mediação do desembargador do Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR), Fernando Antônio Prazeres.

Participaram das discussões a coordenadora-geral da Regularização Fundiária da Diretoria de Destinação de Imóveis da Secretaria de Patrimônio da União, Lauren Cavalheiro da Costa; a presidente da Associação dos Notários e Registradores do Estado do Pará (Anoreg/PA), Moema Locatelli Belluzzo; o juiz de Direito do Tribunal de Justiça do Estado do Pará (TJPA), Agenor Cássio Nascimento Correia de Andrade; e a juíza de Direito, diretora-geral e coordenadora do Núcleo de Governança Fundiária do TJMA, Ticiany Gedeon Maciel Palácio.

Palestrante apresenta conteúdo sobre regularização fundiária durante painel do encontro, enquanto mediadores acompanham a exposição no palco.

Para a presidente da Anoreg/PA, Moema Belluzzo, "sem governança territorial, a regularização fundiária pode produzir novos conflitos. Com governança, ela produz cidadania, segurança jurídica e desenvolvimento. O desafio brasileiro não é apenas entregar títulos. É construir um sistema em que cada título corresponda a um único imóvel identificado, localizado, publicizado e juridicamente seguro."

Lauren Cavalheiro defendeu a importância da integração entre os órgãos envolvidos na regularização fundiária para fortalecer a segurança jurídica dos processos. A palestrante defendeu o aprimoramento dos diagnósticos, a troca de dados em formato digital e o fortalecimento da comunicação institucional entre os órgãos públicos. 

"A troca de dados, a digitalização, a transformação digital e o georreferenciamento são caminhos para fortalecer a governança territorial e tornar a regularização fundiária mais eficiente", falou.

Ao apresentar experiências desenvolvidas no Maranhão, como a regularização de áreas no Rio Anil e o caso de Alcântara, a juíza Ticiany Palácio ressaltou que a escuta qualificada e a presença nos territórios favorecem a construção de soluções mais eficazes para os conflitos fundiários.

"Quando você ouve, sente, você muda, você percebe. É ali que nascem as soluções, que podem ser as mais variadas possíveis.", destacou a diretora-geral do TJMA.

Juíza Ticiany Gedeon Maciel Palácio realiza apresentação durante painel do Encontro Nacional das Comissões de Soluções Fundiárias.

O juiz do TJPA, Agenor Cássio, destacou que a governança territorial vai além da gestão de terras e depende da produção de informações confiáveis, da integração entre instituições e da coordenação de decisões para prevenir conflitos e garantir segurança jurídica. 

"Governança territorial não é apenas gestão de terras. É a capacidade de produzir informações confiáveis, integrar instituições, coordenar decisões, prevenir conflitos e garantir previsibilidade jurídica", afirmou o magistrado.

IMPACTO DO CRIME ORGANIZADO

Na sequência, o painel "Comissões de Soluções Fundiárias: o impacto do crime organizado nos conflitos territoriais" foi mediado pelo juiz auxiliar da Presidência do CNJ, José Gomes de Araujo Filho.

Participaram do debate o desembargador do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA), Cláudio Césare Braga Pereira; e a juíza do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), Carolina Duprat.

Auditório com participantes acompanhando painel do Encontro Nacional das Comissões de Soluções Fundiárias, realizado no Fórum Desembargador Sarney Costa.

Durante o painel, foram discutidos os desafios relacionados à atuação das Comissões de Soluções Fundiárias diante da complexidade dos conflitos territoriais e dos impactos provocados pela atuação do crime organizado.

O desembargador Cláudio Césare Braga ressaltou que a atuação das Comissões de Soluções Fundiárias deve priorizar a resolução dos conflitos, e não apenas dos processos judiciais. O magistrado alertou para o agravamento da violência no campo e para a influência do crime organizado nas disputas territoriais, defendendo o fortalecimento do diálogo, da mediação e da atuação integrada das instituições como caminhos para a construção de soluções pacíficas.

A juíza do TJSP, Carolina Duprat, destacou que a Resolução nº 510 do CNJ mudou a  forma de atuação das Comissões de Soluções Fundiárias ao priorizar a mediação antes da concessão de ordens de reintegração de posse. Segundo a magistrada, a cooperação entre instituições e a análise dos impactos sociais das decisões judiciais são essenciais para garantir soluções mais justas, especialmente diante da crescente atuação do crime organizado em conflitos territoriais.

"Sem cooperação, sem articulação e sem um olhar muito sensível para as consequências práticas da decisão judicial, a gente não consegue chegar nem a uma solução próxima de ser justa.", ressaltou.

MEDIAÇÃO E CONSENSO

Encerrando a programação da tarde, o painel "Metodologias de Mediação e Construção de Soluções Consensuais" foi mediado pelo conselheiro do CNJ e juiz do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), Fábio Francisco Esteves.

As exposições foram conduzidas pela desembargadora federal do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), Rosimayre Gonçalves de Carvalho; pela juíza federal do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), Raquel Domingues do Amaral; e pelo desembargador federal do TRF3, Marcelo Vieira.

Desembargadora federal Rosimayre Gonçalves de Carvalho apresenta palestra sobre mediação estruturante durante o encontro.

Os palestrantes compartilharam experiências sobre métodos de mediação, construção de consensos e soluções dialogadas para conflitos fundiários, enfatizando a atuação cooperativa entre instituições e a busca por respostas mais efetivas às demandas sociais.

A desembargadora do TRF1, Rosimayre Carvalho, compartilhou a experiência da Comissão de Soluções Fundiárias em um conflito envolvendo uma área de preservação responsável pelo abastecimento de água no Distrito Federal. A magistrada destacou que a construção do diálogo e da confiança com a comunidade foi essencial para viabilizar uma solução consensual, conciliando a proteção ambiental com a garantia de direitos das famílias envolvidas.

"O primeiro passo é estabelecer a interlocução, mapear o conflito e as vulnerabilidades para, então, construir consensos.", disse.

A juíza do TRF3, Raquel Amaral, apresentou experiências de Justiça Restaurativa voltadas à resolução de conflitos fundiários envolvendo comunidades indígenas. A magistrada destacou projetos desenvolvidos em Mato Grosso do Sul, baseados na cooperação entre o Poder Judiciário, órgãos de segurança pública e lideranças indígenas, com foco na mediação intercultural, no diálogo e na construção coletiva de soluções.

"Quando nós falamos em território indígena, nós estamos falando em direitos da personalidade e da dignidade da pessoa humana.", frisou.

Finalizando o último painel, o desembargador do TRF3, Marcelo Vieira, abordou a importância da transcendência na mediação de conflitos fundiários. Segundo o magistrado, a construção de soluções consensuais exige que o mediador vá além das técnicas tradicionais, desenvolvendo uma postura de compaixão, escuta e desapego de julgamentos pessoais para compreender a realidade das partes envolvidas.

"Precisamos nos desligar do ego, do julgamento e dos nossos próprios valores para encontrar a verdadeira essência do trabalho que estamos fazendo.", afirmou.

VISITA A ALCÂNTARA

Nesta sexta-feira (19/6), a programação do encontro prossegue com uma visita técnica ao município de Alcântara, realizada das 9h às 19h.

  • Solenidade de encerramento (Alcântara)
  • Entrega do registro do Território Quilombola de Alcântara – Área Norte, em nome da Atequila (Associação do Território Quilombola de Alcântara), com presença da presidente da Associação, Valdirene Ferreira; do presidente do TJMA, desembargador Ricardo Tadeu Bugarin Duailibe; do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Carlos Augusto Pires Brandão; do conselheiro do CNJ e juiz do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), Ilan Presser; e do conselheiro do CNJ e juiz TJDFT, Fábio Francisco Esteves.

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