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Seminário destaca papel do Judiciário na preservação da memória da escravidão no Maranhão
Debate abordou uso de processos judiciais na reconstrução da experiência negra no Maranhão
O Tribunal de Justiça do Maranhão e a Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), em parceria com a Escola Superior da Magistratura do Maranhão (ESMAM), realizaram, nesta sexta-feira (19), em São Luís, o seminário “Justiça e Escravidão: processos-crime como fonte para a reconstrução da experiência negra no Maranhão”. O evento ocorreu no auditório do curso de História da UEMA, no Centro Histórico, e reuniu profissionais do TJMA, pesquisadores e estudantes para discutir a preservação da memória histórica e o enfrentamento ao racismo institucional por meio do acervo do Judiciário.
A mesa de abertura contou com a presença do professor doutor Marcelo Cheche Galves, pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UEMA; da Diretora da Promoção da Igualdade Racial da Associação dos Magistrados do Maranhão (AMMA) e juíza voluntária do Comitê de Diversidade, Luana Santana, coordenadora do Comitê de Diversidade do TJMA; do pesquisador Christofferson Melo, coordenador do Arquivo Judiciário do TJMA; de Carlos Alberto Xinendes, chefe de departamento; e do secretário-geral da ESMAM, Carlos Magno Belo.
O seminário integra as ações do Acordo de Cooperação Técnica firmado entre o TJMA e a UEMA, voltado ao tratamento arquivístico, à pesquisa acadêmica e à difusão de documentos relacionados à criminalização de práticas e saberes afrodescendentes no Maranhão entre 1822 e 1985. Sob custódia do Arquivo Judiciário, o acervo reúne processos judiciais e documentos policiais que registram a atuação do aparato estatal sobre a população negra ao longo da história.
A programação incluiu a apresentação de resultados parciais da pesquisa e a conferência magna do historiador Flávio dos Santos Gomes, referência nacional nos estudos sobre escravidão, diáspora africana e relações étnico-raciais. Durante sua participação, o pesquisador destacou a relevância do evento para além do ambiente acadêmico.

“O seminário é muito importante, não necessariamente pela palestra em si, mas por marcar essa mobilização acadêmica e intelectual para a conservação, organização e pesquisa nos arquivos do Judiciário em todo o Brasil. O Tribunal de Justiça do Maranhão tem se destacado na última década nesse processo”, afirmou.
O professor doutor Yuri Costa, do Departamento de História da UEMA e coordenador da mesa, ressaltou o caráter interinstitucional da iniciativa.

“Esse é um evento que marca a culminância de um acordo de cooperação entre o Tribunal de Justiça e a universidade, voltado a estudar a relação entre as instituições e o racismo ao longo da história”, destacou.
MEMÓRIA E ACERVO HISTÓRICO
O seminário destacou o trabalho desenvolvido pelo Arquivo Judiciário do TJMA na recuperação, organização e difusão de documentos históricos, fundamentais para a compreensão da história social do Maranhão, especialmente no que se refere à experiência da população negra.

Processo histórico restaurado de Daniel Campos de Araújo (Escravo Daniel), líder do Quilombo São Benedito do Céu e participante da Insurreição Escrava de Viana, em 1867.
Entre os resultados apresentados estão a restauração de documentos e a redescoberta de processos judiciais relacionados à escravidão no estado, como registros ligados à Insurreição de Viana, de 1867, além de fontes que revelam trajetórias individuais de pessoas escravizadas. O coordenador do Arquivo Judiciário do TJMA, Christofferson Melo, destacou a relevância do acervo para a preservação da memória da população negra maranhense.

“Essas fontes permitem compreender práticas de resistência, estratégias de busca pela liberdade e aspectos do cotidiano dessas populações. Nosso objetivo é organizar, tratar e disponibilizar esse material para pesquisadores e para a sociedade”, explicou.
A iniciativa também contempla ações voltadas à ampliação do acesso à informação, com a estruturação de uma base de dados que reúne esses registros e possibilita sua consulta pública, contribuindo para o fortalecimento do conhecimento histórico e social.
Outro ponto destacado foi a importância de uma análise crítica sobre a atuação das instituições ao longo do tempo, a partir do estudo de documentos que evidenciam práticas relacionadas ao racismo institucional desde o século XIX.
O evento reforçou o papel dos processos judiciais como fontes históricas essenciais, capazes de revelar não apenas a atuação do Estado, mas também as experiências, estratégias e formas de resistência de pessoas escravizadas e afrodescendentes, contribuindo para uma compreensão mais ampla e crítica da história brasileira.
Confira os registros do seminário no álbum disponível no Flickr da ESMAM
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